03/12
16h25m
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Criança chora ao ver seu lar sendo destruído por uma máquina durante ordem de desocupação em Pinhão

Por Central Cultura de Comunicação

 
No dia seguinte (Sábado 02  de Dezembro de 2017) ao cumprimento do mandado de reintegração de posse na comunidade de Alecrim, em Pinhão, que aconteceu na sexta-feira, 1º de dezembro, os moradores ainda tentavam entender o acontecimento. A maioria deixou os pertences em casas de parentes e amigos e ainda não sabia o que fazer com as criações. As roças foram plantadas, mas não serão colhidas. De um dia para o outro 22 famílias ficaram sem trabalho e sem lugar para morar. Pela manhã, algumas casas ainda estavam sendo demolidas.

“A gente ficou desnorteado, passou o dia, passou a noite, e parecia ser uma hora só”. Assim resumiu o senhor Aldoíno Branda, que com a esposa e filho viveu em Alecrim por 22 anos.

“Demoliram duas casas que eu consegui trabalhando”, desabafa João da Luz, que viveu com a família por sete anos na terra. Na manhã de ontem (1º) a ordenha das 50 vacas leiteiras foi interrompida por policiais, oficial de justiça e homens contratados pela Zattar para remover os moradores do local. O leite que já estava tirado foi jogado fora. Logo a máquina chegou e destruiu a propriedade. Tudo em poucas horas.

“Tenho cinquenta cabeças de gado, que consegui em sete anos, tenho carneiros, porcos, onde vou colocar hoje?”, se questiona. Pertences como móveis e ferramentas estão na casa de dois amigos. Desde hoje ele não tem mais a fonte de renda para sustentar a família.

“Sabe o que é ver as casas dos vizinhos todas moídas? É muita revolta”, disse em tom de desabafo Ana Maria dos Santos Ferreira da Silva. Nos últimos 25 anos ela estruturou a propriedade. Casa em alvenaria, paióis, abrigo para animais, tanques de peixe, cercas, plantações, até uma pista de laço foi construída na propriedade. Tudo foi abaixo na manhã de hoje (2).

Ao lado das três filhas e de amigos que vieram lhe apoio ela assistiu em prantos a máquina avançar sobre a casa. Em minutos tudo virou entulho.

“Estou na casa da minha filha, em Pinhão, amontoada com três famílias que não sabem o que fazer”, disse.

“Precisava de tudo isso? Essa covardia. Ninguém foi avisado. É justo você morar na sua terra a vida inteira e seis horas da manhã te dão o prazo de uma hora para tirar as suas coisas ou eles irão passar com a máquina por cima?”, desabafa a filha de Ana, Juliana Ferreira, de 23 anos. Ela, assim como dois irmão, nasceu e viveu a maior parte da vida na casa que assistiu ser destruída na manhã de hoje (2).

Nem a igreja e o posto de saúde da comunidade foram poupados. Desde ontem, homens de uma empresa de segurança armada acompanha todos os passos que são dados na área agora retomada pelo Zattar.

Preocupação

Outros 16 mandados de reintegração de posse já estão autorizadas. A próxima para quinta-feira (7/12). As informações ainda são desencontradas, mas a preocupação de 1/3 dos moradores de Pinhão é muito grande.

Na manhã desse sábado (2/12) moradores se reuniram para buscar estratégias de organização. Sem possibilidade de recorrer dos processos, a esperança é uma intervenção do Estado. Esse desejo, aliá, é antigo. Há pelo menos 20 anos os camponeses aguardam uma ação do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). 

Força policial

A ação que permitiu a retirada, do dia (1º), de 22 famílias de suas casas é de 1997. Estava suspensa. Não foi cumprida, ao longo dos anos, em alguns momentos por acordo, em outros momentos por falta de efetivo policial. A força policial deve ser enviada pelo estado. Nesta ação o Governo do Estado garantiu à empresa Zattar o que faltava para retirar as famílias: um efetivo de policiais militares. As máquinas e caminhões para remover os bens que sobraram dos moradores foram pagas pela empresa Zattar.

Na semana passada, em entrevista à Rádio Cultura de Guarapuava, Hamilton Serighuelli foi perguntado se o governador Beto Richa e sua equipe fariam diálogo com o judiciário sobre as reintegrações. Ele é Assessor Especial para Assuntos Fundiários, ligado à Casa Civil do Estado. 

“Desde 2011 o governo está trabalhando na interlocução entre movimentos sociais, judiciário, Ministério Público, polícia, e temos buscado resolver tudo pacificamente. Tanto judiciário, quanto Ministério Público tem sido muito parceiros para encontrar soluções”, disse o assessor. Ele ressaltou, no entanto, que cabe ao Incra resolver o problema.

Ainda segundo ele, é desejo do governador resolver o problema do conflito em Pinhão até o final do seu mandato.

 

Como a Zattar conseguiu tantas terras em Pinhão?

Concentração de terras da empresa Zattar historicamente gera conflitos na região. Cumprimento de mandado de reintegração, nessa sexta-feira (1º dezembro), aumenta tensão, pois quase 1/3 da população de Pinhão mora em Zatarlândia.

Uma propriedade tão grande que ganhou nome de cidade: Zatarlândia. Como a família libanesa conseguiu esse império? Concentração de terra que atualmente é motivo de desigualdade e conflito no município de Pinhão. São cerca de 15 áreas que estão ocupadas e são reivindicadas pela empresa.

Não há respostas definitivas, mas alguns trabalhos acadêmicos ajudam a entender. Um primeiro registro fundamental é de que os Zattar não foram os primeiros a chegar nas terras que atualmente tem os documentos e pedem reintegração. Segundo a pesquisadora Dibe Salua Ayoub, em um dos trabalhos publicados sobre o tema, a madeireira comprava pinheiros das propriedades do agricultores. Os contratos assinados, no entanto, não eram da compra da madeira, mas das propriedades.

“A população, que naquela época era de maioria analfabeta, assinava contratos confiando que estava vendendo árvores, mas na verdade estava abrindo mão de suas propriedades”, afirma um trecho do trabalho.

Segundo a pesquisadora, essa prática ocorria acompanhada de violência e foi realizada pela empresa de 1950 à 1980. Vários outros documentos, inclusive oficiais, registram essa ação violenta. Com isso, as alternativas eram migrar para cidade, encontrar outro local para se estabelecer com a família ou, em alguns casos, virar funcionário da empresa.

No livro “Madeira de lei: uma crônica da vida e Obra de Miguel Zattar” (Edição do autor, 2008), escrito por Nilson Monteiro e cujos direitos são reservados ao espólio de Miguel Zattar, consta a informação que a empresa tinha sete mil escrituras de terras em Pinhão. Isso na época em que o fundador da empresa, João José Zattar, morreu e passou o comando para o filho Miguel.

A elogiosa biografia de Miguel Zattar menciona, em um dos trechos, que devido ao “acirramento da disputa familiar, em 1992, a empresa passou por uma crise de grandes proporções. Isso favoreceu a proliferação de oportunistas em Pinhão, invadindo terras e/ou furtando madeira”.

Na década de 1970 foi realizada a medição judicial e 'regularização' do território de Pinhão, incluindo o pedaço atualmente em disputa. A pesquisa de Jefferson de Oliveira Salles identifica que nesse período várias famílias tradicionais de Guarapuava, herdeiras de sesmarias, reivindicavam terras. Dentre os que se auto declaravam proprietários, a família Zattar, que obteve documentos também nesse período.

O trabalho acadêmico demonstra que a proximidade de alguns requerentes com juízes e responsáveis pela medição oficial e regulamentação das terras pode ter causado favorecimentos para alguns proprietários. Isso em várias áreas.

Destaca-se que nesse ato de formalização das terras não há registro de participação dos camponeses. A afirmação é feita com base no relatório da Comissão Especial de Investigação, realizada pela Alep (Assembleia Legislativa do Paraná), em 1992.

O trabalho apresenta outras informações que revelam como a propriedade na região em conflito foi transferida do Estado para particulares. Em muitos casos, a propriedade era fornecida para quem não morava ou trabalhava na terra. Um dos aspectos que iniciaram o conflito que teve mais um capítulo hoje (1º de dezembro).

Dilema

O município do Pinhão vive um dilema. São cerca de três mil famílias, sete mil pessoas, que moram e produzem alimentos no município, mas que correm o risco de serem despejadas se o Governo Federal não fizer a reforma agrária. Isso ocorre porque essas famílias vivem em áreas que, a princípio, no papel, são do grupo empresarial Zattar, que por anos retirando madeira nativa na cidade e beneficiando em suas serrarias e indústria.
Das 3 mil famílias, algumas são faxinalenses, alguns posseiros, outros acampados ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Muitas famílias vivem nessas propriedades há mais de 30 anos, produzindo e preservando as matas no local.
O problema é que recentemente vários pedidos de reintegração de posse tem sido acatados na Justiça e podem, a qualquer momento, ter seu cumprimento executado, desalojando famílias.

Para buscar soluções para essa situação extremamente urgente para o município, na tarde do dia (24), foi realizada uma audiência pública. Esteve presente uma representante do Incra, autarquia do Governo Federal responsável por fazer os assentamentos. Além de outras lideranças locais e estaduais.

Leia ainda: Intervenção federal despeja mais de 100 famílias no interior do Paraná

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